sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

A GERAÇÃO MÁGICA DO HOMÚNCULO

Com o devido consentimento transcrevo na íntegra este artigo do Professor e amigo Argus Vasconcelos de Almeida que considero de profunda importância para a compreensão dos nossos conhecimentos atuais sobre biologia, medicina, química, e farmacologia. Bem fundamentada a pesquisa do Professor Argus nos mostra que não existe inventor sem precursor, que existe uma raiz, uma fonte onde a ciência moderna foi beber ao longo dos séculos, que a história não está desvinculada da realidade. Antes de todo o arsenal terapêutico que dispomos hoje estavam os magos, as bruxas, os alquimistas, que buscavam a cura e o alívio do sofrimento humano causados pelas doenças. Se chegamos às células tronco, aos clones e chegaremos a muito mais no futuro, isto se deve ao legado daqueles que enfrentaram a desconfiança, a perseguição e pagaram até com a vida a audácia de desvendar o desconhecido.


A GERAÇÃO MÁGICA DO HOMÚNCULO



Argus Vasconcelos de Almeida
Professor Titular aposentado do Departamento de Biologia da UFRPE

Introdução.
            Por mais estranhas que nos possam parecer as tentativas mágicas de criação da vida humana, nos adverte Philip Ball (2007), em diversas citações, que a magia pode ser considerada ontologicamente como uma precursora da ciência.
Assim, o historiador Wayne Shumaker faz uma observação que serve para nos lembrar que muitas histórias da ciência têm negligenciado: “no Renascimento a chamada magia era uma ancestral quase direta da verdadeira ciência do que qualquer uma das filosofias dominantes, tanto o aristotelismo, quanto o platonismo” (BALL, 2007)
“O Mago do Renascimento”, diz o historiador Frances Yates, “é o ancestral imediato do cientista do século XVII”  (BALL, 2007).
A Magia foi, sem dúvida ligada a superstições medievais, mas também era uma pré-condição para a ciência. De fato, se o século XV teve uma ciência em tudo, era a “ciência da magia” (BALL, 2007).
Escreve o Prof. Adriano de León, sobre isso:

O imaginário da sociedade quinhentista está povoado de um discurso eclético que abriga desde as Ciências Ocultas até os primeiros experimentos clássicos da Ciência Moderna. Desta maneira, ocultistas como Ficino, Cornelius Agrippa, John Dee, Giordanno Bruno e Robert Fludd participavam das mesmas escolas secretas que Copérnico, Kepler, Darwin e Newton. [...] Foi graças à Magia Natural que se esboçou a ciência natural moderna. A compreensão dos reinos mineral e vegetal, sua classificação, a fisiologia dos seres vivos e o uso dos minerais já era matéria de estudo da Magia Natural, mas sob uma outra ótica. A visão das ciências naturais visavam o estudo dos seres e do mundo físico a partir de leis compreensíveis e regulares do mundo material, mundo sem intervenções de ordem sobrenatural de qualquer espécie (LÉON, 2004, p. 03).

Segundo o autor, a Idade Clássica vai conferir ao conjunto de saberes ocultos o status de ciência.  Isto seria aceitável numa época em que ainda não havia a clássica definição de ciência e seus argumentos metodológicos, e a construção de uma epistemologia científica dependia, em larga escala, de saberes outros que serviriam de cadinho para a formação de um espírito verdadeiramente científico (LEÓN, 2004).
Entretanto, atualmente, existe uma narrativa que acredita que a Ciência Moderna é fruto de geração espontânea, e nenhuma relação tem com outras formas de saberes, a exemplo das Ciências Ocultas (LEÓN, 2004).
O sonho humano de geração da vida artificial é muito antigo. Pode ser acompanhado desde a antiguidade grega até os dias atuais, como nas tentativas de criação da vida em laboratório.
Todos os esforços para criar seres humanos artificiais são mais ou menos fantasiosos, mas eles têm raízes profundas na cultura ocidental. Todos expressam temores sobre a supostamente traiçoeira natureza faustiana da tecnologia, e todos questionam se qualquer pessoa artificialmente criada pode ser verdadeiramente humana (BALL, 2016).
Segundo Ball (2016), a biologia sintética parece ir ao coração de uma das mais profundas e antigas dessas imaginações: a criação e o controle da vida através da “techné” . A biologia sintética tem um potencial que vai muito além da criação de medicamentos. Não deveríamos achar surpreendente se tais poderes despertem velhos mitos e associações. Precisamos estar cientes da influência histórica de nossos mitos, suas mensagens morais ocultas e os preconceitos e premonições que elas invocam. Nunca houve um Fausto que negociou com o diabo, o monstro de Frankenstein nunca foi criado, o Admirável Mundo Novo nunca chegou – mas a verdadeira razão pela qual ainda estamos invocando essas imagens é que elas ainda se encaixam nas formas de nossos pesadelos (BALL, 2016).
Assim, é objetivo do presente trabalho tentar entender como foram construídas as tentativas mágicas da geração do homúnculo.

Primórdios homunculares
O Liber aneguemis ("Livro das Leis"), é uma obra latina de magia natural prática dos séculos XII-XIII. Também era conhecido como Liber Vaccae ("O Livro da Vaca") ou Liber Institutionum Activarum. É um dos mais antigos grimórios (livro de feitiços) conhecidos e serviu de inspiração para outros tratados posteriores da alquimia.
O Liber aneguemis foi baseado na tradução do manuscrito árabe do século IX intitulado Kitab an-Nawamis, que foi a tradução árabe atribuída a Hunayn ibn Ishaq[1], de um texto escrito supostamente por Platão. Está dividido em duas partes: Liber Maior ("O livro-mestre") e Liber Minor ("O livro menor").
O “Livro-Mestre” contém receitas para adquirir poderes (invisibilidade, adivinhação, o domínio de fenómenos naturais, transformação, etc.) e para a criação de seres vivos artificiais híbridos, especialmente de substâncias, incluindo preparações minerais, fluidos corporais ( como o esperma e o sangue) e o resto corporal de homens e animais, utilizando-se, além disso, recipientes de vidro e metal, dentro de um laboratório mágico.
O título alternativo Liber vaccae é relativo a um par de experiências, em que uma entidade humana para ser criada deve ser utilizada uma vaca (ou sua falta, uma ovelha), esperma humano, o sangue dos animais e componentes alquímicos, e outro onde, do sacrifício de uma vaca, procede à geração de abelhas (bugonia). É comum ver na obra como o corpo dos animais torna-se uma espécie de destilador. "O livro menor", por outro lado, lida com a questão das ilusões de ótica e a criação de artefatos para alcançá-lo.
Eis a fantasiosa descrição do procedimento da geração de um homúnculo: o mago ou iniciante deve misturar seu próprio sêmen, ainda morno, com uma quantidade equivalente de "pedra do sol", e com essa mistura ele deve inseminar uma vaca ou ovelha de sua escolha. Tendo introduzido a mistura no animal, untar os órgãos genitais da besta com o sangue de vaca (se inseminadas ovelhas), ou vice-versa, e trazer o animal em uma casa escura onde o sol não penetra. Durante o período de gestação, a forragem da vaca deve ser misturada com o sangue da ovelha (ou com sangue de vaca, se o animal for inseminado como ovelha). Enquanto isso, o mago deve preparar uma mistura de “pedra do sol” em pó, enxofre, pedra magnética e “totohis” verdes, tudo misturado com seiva de salgueiro branco. Quando o animal finalmente para, a substância que expele deve ser colocada dentro dessa mistura para que a pele cresça. O homúnculo deve permanecer em um recipiente de vidro ou chumbo por três dias até que esteja com fome voraz. Então, por sete dias, ele receberá o sangue da mãe decapitada, o que fará com que a criatura se desenvolva completamente. A criatura assim criada pode ser usada mais tarde como um ingrediente mágico: se um homem for decapitado e receber seu sangue, ele será transformado em uma vaca ou ovelha; se for mantido vivo por um ano e banhado com leite e água da chuva, será capaz de prever acontecimentos futuros (LIBER ANEGUEMIS).
Já a Espagíria renascentista é uma síntese de dois verbos gregos spau e agereum, coagular e dissolver, que é o axioma básico da alquimia. A Espagíria então pode ser compreendida como a alquimia dos elixires destinada a obtenção de um fármaco perfeito, mediante práticas alquimistas. Embora que predominantemente o processo envolvesse fermentações, destilações e extrações de componentes minerais de madeiras e plantas, também foi usada para produtos de origem animal, inclusive do próprio homem. A Paracelso (1493-1541) não se deve somente a denominação e o conceito da Arte Espagírica, mas também a introdução desta na Europa e da sua saída dos mosteiros e palácios para os laboratórios (ALMEIDA, 2013).
Numa passagem célebre do livro De Natura Rerum (1537), Paracelso imagina a possibilidade de um homem ser gerado artificialmente:
Tem-se discutido muito a idéia de que a natureza e a ciência nos teriam proporcionado meios para criar um ser humano sem a interferência da mulher. Quanto a mim acho que isto é completamente possível e não é contrário às leis da natureza. Dou aqui as normas que deverão ser observadas para que se atinja esse objectivo. Põe-se num alambique a porção suficiente de sémen humano, sela-se o alambique e este é conservado durante quarenta dias à temperatura semelhante à que prevalece no interior dum cavalo. Ao fim de este prazo, a semente humana começa a crescer, a viver e a mover-se. Já então deve possuir forma humana, embora pareça transparente e imaterial. Durante mais quarenta semanas, deve ser cuidadosamente alimentada com sangue humano e guardada no mesmo local aquecido. Torna-se então uma criança viva, com todas as características de um recém-nascido de mulher, porém menor. A isso se dá o nome de homúnculo. Deve ser tratado com todo o cuidado, até crescer o necessário e começar a evidenciar sinais de inteligência (PARACELSUS, 1537).
O médico e alquimista John French (1616-1657) escreveu na segunda metade do Século XVII, o livro  “A Arte da Destilação”. O livro de French tem o longo título:
The Art of Distillation. Or, A Treatise of the Choicest Spagyrical Preparations Performed by Way o£ Distillation, Being Partly Taken Out of the Most Select Chemical Authors of the Diverse I,anguages and Partly Out of the Author's Manual Experience together with, The Description of the Chiefest Furnaces and Vessels Used by Ancient and Modern Chemists also A Discourse on Diverse Spagyrical Experiments and Curiosities, and of the Anatomy of Gold and Silver, with The Chiefest Preparations and Curiosities Thereof, and Virtues of Them All. All Which Are Contained In Six Books Composed By John French, Dr. of Physick. London. Printed by Richard Cotes and are to sold by Thomas Williams at the Bible in Little-Britain without Aldersgate, 1651. (cuja tradução é: A arte da destilação. Ou, um tratado das mais escolhidas preparações espagíricas executadas por via da destilação, sendo parcialmente retirado dos autores químicos mais seletos e de diversas linguagens e em parte da experiência pessoal do Autor, bem como, da descrição dos fornos e vasos utilizados pelos químicos antigos e modernos e também um discurso em diversos experimentos espagírico e curiosidades, e da anatomia do ouro e da prata, com as principais preparações e curiosidades do mesmo, e virtudes de todos eles. Tudo está contido em seis livros compostos por John French, médico de Londres. Impresso por Richard Cotes e vendidos por Thomas Williams na Bíblia em Little-Grã-Bretanha, Aldersgate, 1651).
Do golem cabalístico ao homúnculo de Paracelso
Abu Mūsā Jābir ibn Hayyān (também conhecido pela versão latinizada do seu nome, Geber, (c.721–c.815) foi um polímata, filósofo e alquimista islâmico. Supõe-se que ele foi o primeiro explorador hermético a realizar experiências proto-homunculares, discursando sobre a forma de animar estátuas, com base no principio de que todos os fenômenos naturais seriam efeitos de uma energia sutil que penetrava e animava a matéria inerte. Assim, descreveu um aparelho de vidro, cristal ou pedra para produzir seres humanos (PINTO-CORREIA, 1999).
            Em seguida a Geber, a criação de homúnculos foi mencionada por Simon Magus, Arnau de Vilanova, Agrippa von Nettenshein, Robert Fludd e Paracelso. O desejo de sua criação pode ter servido a diversos desígnios, tais como a proteção dos homens como o golem na legenda judaica, ou o desígnio de transgredir os limites humanos ou u possuir um desejo onipotente de superar as limitações humanas e se tornar um Deus onipotente (ALMEIDA, 2013).
Pode-se argumentar que um gigante feito de barro dificilmente poderia ser considerado um homúnculo, pois esse termo é usado para designar pequenas criaturas. Contudo, a lenda dos golems constitui um tema de estudo interessante sobre a tentativa de criar a vida humana artificialmente.
O autor cabalista medieval Eleazar de Worms (1176-1239) acreditava poder criar um homem artificial (Golem) com uma mistura de letras e práticas mágicas, destinadas a obter determinadas experiências místicas, durante as quais o Golem adquiriria vida autônoma.
Se Deus criou o cosmos mediante o pensamento e o verbo com suas letras e números, o homem poderia ser possuidor dos meios e realizar toda uma série de prodígios, obviamente em menor escala, mas que modificariam a natureza interior. Neste sentido, o ser humano sabedor das leis e escrituras, poderia gerar criações artificiais com a combinação adequada dos 72 signos alfabéticos do nome de Deus, seguindo as instruções do livro cabalístico de Yetsira (CHINCHILLA-SÁNCHEZ, 2001).
Nos ensinamentos de Eleazar de Worms no ritual do golem, tomaria-se a terra não trabalhada da montanha amassada em água corrente e moldar-se-ia com ela uma figura humana. Sobre cada um dos membros do corpo do boneco se pronunciariam as consoantes que prescreve o livro Sefer Yetsira. Finalmente, se escreveria na argila do futuro indivíduo um dos nomes secretos de Deus e a matéria informe do golem se animaria de vida.
O princípio mítico da criação de uma entidade artificial não é originário da Cabala medieval, remonta as mais antigas tradições judaicas, com base no livro de Gênesis (1, 24): “Disse Deus: produza a terra animais viventes em cada gênero, animais domésticos, répteis e bestas silvestres da terra, segundo as suas espécies. E assim foi feito”.
Os cabalistas interpretaram aqui a confirmação indireta da possibilidade real de uma animação da matéria morta, não havendo recebido o hálito inicial da vida. Por sua parte, os tradutores da Bíblia inseriram a denominação de “golem” ao mesmo Adão, antes que lhe fosse insuflada a alma e, principalmente, antes que falasse.
Posteriormente as prescrições de Eleazar de Worms, a “fórmula” se multiplica sobre a geração do golem. Mas com o passar do tempo, a qualidade da ideia do homúnculo experimentou uma mudança notável. A partir de um certo tempo, a criação de um ser artificial deixou de ser uma perícia levada a cabo por pessoas piedosas, que recorriam sempre a ajuda de Deus, para constituir-se num puro e simples ato de magia negra assistido pelo diabo (CHINCHILLA-SÁNCHEZ, 2001).
Outra característica das novas “receitas” era a necessidade, cada vez maior, da ajuda de técnicas mais ou menos sofisticadas. Assim, desde o século XV, o enlace entre a Cabala e a Alquimia teve em Paracelso seu melhor expoente, no intento mais audaz das ciências ocultas na geração do homúnculo (ALMEIDA, 2013).
Mais tarde, no século XVII, ao contrário das antigas representações judaicas, a imagem do golem é desviada para ameaçadora e maligna. O homem artificial se vê dotado de uma energia excepcional, sendo capaz de causar grandes calamidades e possuir a força para destruir o universo. Esta concepção, como ligeiras variantes, perdura até os dias de hoje (CHINCHILLA-SÁNCHEZ, 2001).
Bem antes de Paracelso, o tema da geração do homúnculo também foi atribuída a Arnau de Vilanova (c. 1238-1311) médico e alquimista catalão, de quem diz a lenda que ele se vangloriava de ter criado um homem pela alquimia e que quando ele viu o embrião formando no alambique com todos os seus membros e órgãos, não levou adiante experiência por medo de que Deus seria forçado a dar uma alma racional ao criatura. Segundo o teólogo Alonso de Madrigal, o Tostado (1400-1455), o episódio em que Arnau cria um ser humano artificial em um vaso, mas não se atreveu a levar a criação até o fim por medo de ser visto como um usurpador de poder de Deus.
Um outro que tentou criar homúnculos foi o médico e alquimista alemão Johann Konrad Dippel (1673-1734), que experimentou fecundar ovos de galinha com sêmen humano e tapar o orifício com sangue de menstruação (sua vida inspirou a escritora Mary Shelley a escrever o seu romance “Frankenstein ou o Prometeu Moderno” de 1818) (ALMEIDA, 2013).
Laurent Catelan (c.1568-1647), em sua obra Rare et Curieux Discours de la Plante Appelée Mandragore, de 1638, discute extensamente a corporificação de um conceito homuncular, a partir da conhecida lenda da mandrágora, que cresce em solo fertilizado pela urina de um homem inocente em agonia, enforcado pelo crime de roubo, e a planta desenvolveria raízes com a forma de um homem, dotado de um enorme falo. Entretanto, em  sua obra, Castelan admitia que essas ideias haviam sido negada por muitos e que o homúnculo de Paracelso poderia “ser uma forma de magia diabólica” (PINTO-CORREIA, 1999).
Num texto breve de 1672, o médico alemão Christian Friedrich Garmann (1640-1708), discute a evolução do homem a partir do ovo e se a concepção poderia ocorrer fora do útero, como mostra “homúnculo químico de Paracelso” (PINTO-CORREIA, 1999).
O médico escocês William Maxwell (1581-1641) na sua obra De Medicina Magnetica de 1679, tentou provar a possibilidade de geração de um homúnculo, a partir das cinzas de uma planta, afirmando que o sal do sangue, adequadamente preparado, e como os sais das ervas podem reproduzir a aparência da erva no tubo de ensaio, também o sal do sangue humano poderia mostrar a imagem de um homem, o verdadeiro homúnculo de Paracelso (PINTO-CORREIA, 1999).
Entretanto, as ideias de geração do homúnculo de Paracelso, ao longo dos séculos XVII e XVIII, foram também vigorosamente refutadas por diversos autores, considerando suas ideias como ímpias, heréticas, ridículas e abomináveis (PINTO-CORREIA, 1999).
No entanto, também é possível que o homúnculo seja uma alegoria, uma interpretação muito literal das imagens alegóricas alquímicas respeitantes à criação, pela arte, de novas entidades minerais, sejam elas objetivos finais ou intermédios. Essas imagens comportam, muitas vezes, a representação de um ser emblemático, humano, animal ou quimérico, numa retorta. Provavelmente é este conceito alegórico usado no “famoso arcano” descrito por J. French (1651):

O FAMOSO ARCANO[2] OU MEDICAMENTO RESTAURADOR DE PARACELSO CHAMADOPOR ELE DE HOMÚNCULO

Primeiro teremos que entender que existem três significados do termo “homunculus” em Paracelso, que são os seguintes:

1 O homúnculo como uma imagem supersticiosa feita em lugar, ou em nome de qualquer um, que pode conter um homem astral e invisível, portanto feito para um uso supersticioso.

 2 O homúnculo tomado como um homem artificial, feito de esperma masculino de digerido na forma de um homem, e então nutrido e aumentado com a essência do sangue de homem; isto não é repugnante na possibilidade de natureza e arte. Mas é considerado uma das maiores maravilhas de Deus que sofreu para o homem mortal saber. Eu não vou aqui me pronunciar sobre todo o processo, porque eu acho impróprio para ser feito, ou pelo menos, ser divulgado. Além de nem ser este o meu presente propósito.

3 O homúnculo feito para ser um arcano ou um medicamento excelente obtido pela arte espagírica dos melhores autores na linha natural, é de acordo com esta acepção eu falarei aqui. Mas antes de apresentar este processo, vou dar uma explicação porque este medicamento é chamado de homúnculo. Nenhum homem sábio negará que o principal fator que mantém a vida é a nutrição, e que os alimentos mais importantes são o pão e o vinho, ordenados por Deus acima de todas as coisas na natureza. Além disso, Paracelso preferiu na geração do sangue e do espírito do seu homúnculo o uso de esperma. Agora, por uma alusão adequada o alimento é levado para a vida do homem e, especialmente, porque se transmuta em vida. E novamente a vida é tirada para o homem, mas a menos que um homem estiver vivo, ele não é um homem, mas a carcaça de um homem, e sua parte mais vil não pode perfeitamente ser considerada como o homem todo, como pode a sua parte mais nobre. Na medida, portanto, como o alimento da vida pode ser chamado de vida do homem, e a vida do homem ser chamado de homem, este alimento extraído do pão e do vinho, e sendo por digestão[3] exaltada à mais alta pureza de uma substância nutritiva e, consequentemente, tornando-se a vida do homem, sendo assim potencialmente ou metaforicamente chamado homúnculo.
O processo estabelecido alegoricamente é assim: escolher uma certa quantidade do melhor trigo e vinho e fechá-los hermeticamente num vidro. Deixá-los então entrar em putrefação em esterco de cavalo[4] durante três dias ou até que o trigo começar a germinar ou a brotar, que deve ser levado e machucado em um almofariz e ser pressionado através de um pano de linho. Aparecerá então um suco branco como leite. Você deve lançar fora os restos. Deixe este suco em um copo cujo volume não deverá estar acima de metade. Colocá-lo nas fezes de cavalo por um tempo de cinquenta dias. Se o calor para temperar não exceder o calor natural do homem, a matéria estará transformada em sangue e carne espagírica, como num embrião. Esta é o principal aspecto e próximo do qual é gerado o esperma duas vezes, isto é, do pai e da mãe que geram o homúnculo, sem o qual não pode ser feita nenhuma geração, seja humano ou animal. Do sangue e da carne deste embrião deixar a água ser separada numa tina, e o ar nas cinzas, e que ambos sejam mantidos por si mesmos. Em seguida, para os resíduos da última destilação, deixar a água da destilação anterior ser adicionada, tanto que deve (o vidro deve estar perto) putrefazer em banho-maria pelo tempo de 10 dias. Depois disto, destilar a água uma segunda vez (no fogo) em brasas. Em seguida, destilar esta água em banho-maria suave, e manter no fogo em brasas. Mantenha ambos separados. E assim, você tem os quatro elementos separados do caos do embrião. A terra feculenta1[5] é para ser reverberada[6] em um vaso fechado pelo tempo de quatro dias. Neste ínterim, destilar a quarta parte da primeira destilação em banho-maria e moldá-la separada. As outras três partes se destilam em brasas e são vertidas na terra reverberada, e se destilam em fogo forte. Redestilar quatro vezes, e assim será obtida uma água muito clara que deve ser mantida por si. Em seguida despeje o ar na mesma terra e o destile em um fogo forte. Obter-se-á uma água clara, esplêndida, odorífera, que deve ser mantida em separado. Após isso, primeiro despeje o fogo sobre a água e deixar em putrefação em banho-maria pelo tempo de três dias. Então colocá-la numa retorta e destilar na areia e virá uma prova de fogo da água. Deixe esta água ser destilada em banho-maria. O que foi destilado fora, manter por si só, como também, o que permanece na parte inferior, que é o fogo e mantê-lo por si só. Esta última água destilada derramar novamente sobre sua terra e deixá-los ser macerados juntos em banho-maria pelo o tempo de três dias. Então deixe toda a água ser destilada na areia e deixe-a que vai surgir separados em banho-maria, e o resíduo remanescente no fundo ser reservado com o antigo resíduo. Deixe a água novamente ser derramada sobre a terra, ser abstraída e separada, como antes, até que nada permaneça no fundo que não é separado pelo banho-maria. Isto sendo feito, deixe a água que foi ultimamente separada ser misturada com os resíduos de seu fogo e ser macerada em banho-maria por três ou quatro dias, e tudo ser destilado em banho-maria que pode subir com esse calor. Deixe o que resta ser destilado nas cinzas do fogo, e o que deve ser elevado é aéreo. E o que resta no fundo é ardente. Estes dois últimos licores são atribuídos para os dois primeiros princípios, o primeiro para Mercúrio e o último de Enxofre. Eles são explicados por Paracelso não como elementos, mas como suas partes vitais, sendo, por assim dizer, os espíritos naturais e a alma que por natureza, são em si. Agora, ambos devem ser retificados e refletidos no seu centro com um movimento circular, de modo que esse mercúrio pode ser preparado com sua água sendo mantido claro e odorífero no lugar superior, mas o enxofre deixar por si só. Agora, resta olhar para o terceiro princípio. Deixe a terra reverberar, sendo o chão moído como mármore, embeber sua própria água que permaneceu após a última separação entre os licores feitos em banho-maria, para que isso seja a quarta parte do peso da sua terra e ser congelado pelo calor das cinzas em sua terra. Deixe isto ser feito tantas vezes, a proporção que está sendo observada, até que a terra tenha embebido toda a sua água. E, finalmente, deixar esta terra ser sublimada em um pó branco, tão branco quanto a neve, sendo o resíduo lançado fora. Esta terra, sendo sublimada e liberta da sua obscuridade, é o verdadeiro caos dos elementos, pois contêm essas coisas ocultas, ver que é o sal da natureza em que se encontra escondido, como se fosse, em seu centro.
Este é o terceiro princípio de Paracelso e o sal, o que é a matriz, em que os dois antigos espermas, isto é o homem e a mulher, os pais do homúnculo, isto é, o mercúrio e enxofre são para ser colocados e fechado juntos em um útero com vidro fechado com selos de Hermes para a verdadeira geração do homúnculo provenha a partir de embrião espagírico. E este é o homúnculo ou o grande arcano, chamado o medicamento nutritivo de Paracelso. Este homúnculo é de tal virtude que atualmente depois é tomado pelo corpo e transformado em sangue e espíritos. Se então as doenças mortais porque elas destroem os espíritos, que doença mortal pode suportar tal medicamento que logo repara e fortalece os espíritos. Com este medicamento, consequentemente, enquanto as doenças são superadas e expelidas, assim também, a juventude é renovada e os cabelos cinzentos são impedidos de aparecer.

Considerações finais
Historicamente, a medicina, era considerada como uma das principais ciências ou “artes”, na linguagem da época, adotava a Doutrina das Assinaturas, onde o verdadeiro médico deveria buscar nos reinos vegetal, animal e mineral aquelas substâncias que correspondiam aos corpos celestes (analogia do macrocosmo-microcosmo) e, em última instância, a intervenção do “Criador” (MAGALHÃES; ALMEIDA, 1999).
De acordo com Paracelso, a medicina e a alquimia são artes inseparáveis:
Como poderia eu elogiar aqueles que são médicos e não são ao mesmo tempo alquimistas? Se a arte da medicina fosse encontrada somente entre os médicos, estes não seriam capazes de usá-la, pois, não teriam em suas mãos a chave dos mistérios. Assim, eu só posso elogiar aquele que sabe induzir a natureza a ser útil, ou seja, que seja capaz de reconhecer o que existe escondido na natureza. Pois, o conhecimento e a preparação, ou seja, a medicina e a alquimia jamais devem ser separadas (PARACELSUS, 1995).

Segundo Debus (1995), a medicina paracelsiana representou uma reação à tradicional veneração renascentista pela antiguidade clássica. Os primeiros paracelsianos atacavam severamente as doutrinas de Aristóteles e Galeno, e com mais moderação a de Hipócrates. Em troca, buscavam nos textos herméticos, alquímicos e neoplatônicos, recentemente traduzidos na época, o fundamento de um universo vitalista, da analogia macrocosmo-microcosmo, do ofício divino do médico, e de uma nova interpretação cristã de toda a natureza.
Já a alquimia, scientia separationis, permite ao homem separar os corpos, através do fogo, para que os olhos penetrem além da superfície, tornando perceptível aquilo que antes era imperceptível. Deste ponto de vista, a alquimia prolonga e aperfeiçoa o trabalho da natureza e através da arte conduz à perfeição, para benefício do homem, o que a natureza deixou imaturo:
As virtudes que jazem escondidas na natureza jamais seriam reveladas se a alquimia não as houvesse descoberto, tornando-as visíveis [...] A alquimia é uma arte necessária e indispensável [...] Ela é uma arte e Vulcano é seu artista. Quem é um Vulcano domina essa arte; quem não é Vulcano não pode progredir na mesma [...] Todas as coisas foram criadas num estado inacabado, nada está terminado, mas Vulcano deve levá-las à perfeição (PARACELSUS, 1995).

Assim, os ensaios laboratoriais e as especulações delirantes da geração do homúnculo pela Alquimia Espagírica podem ser considerados um “programa de pesquisa” renascentista que tinha por fundamento uma concepção mística da natureza, teorias platônicas, neoplatônicas e herméticas, associadas ao humanismo e à literatura clássica que adquiriu sua maior expressão em Paracelso e seus seguidores. Tais estudos expressavam-se em línguas vernáculas abordando a natureza, valorizando a observação e a experimentação.
Mais tarde, nos séculos XVII e XVIII, a embriologia nascente haveria de se confrontar com o espectro do homúnculo no debate entre pré-formacionistas e epigenistas. A teoria do pré-formacionismo, sobretudo no debate entre ovistas e espermistas, os quais sustentavam que o espermatozoide já possuía uma miniatura do organismo pré formada, denominada homúnculo, o qual estudiosos afirmaram ser possível de ser visualizado em microscópio. Portanto, o desenvolvimento se dava apenas em crescimento.
Escreve Pinto-Correia (1999) que no século XVII foi publicada e amplamente divulgada uma imagem icônica de um espermatozoide com uma longa cauda e cabeça volumosa e dentro desta, um homúnculo em posição fetal, desenhada por Nicolaas Hartsoeker (1656-1725)  através de um microscópio simples  e publicada na obra Essay de dioptrique em 1694.
Para Lewontin, uma atualização do discurso pré-formacionista, tão popular no século XVII: quer para Charles Perrault, Malebranche, quer para Jacob, a totalidade do ser vivo plenamente desenvolvido existe em potência numa fase primitiva de sua existência. Que a ontogênese seja plenamente determinada por um “software” genético ou que ela esteja completamente estabelecida no embrião, percebido como um homúnculo, cujo desenvolvimento neste caso seria apenas crescimento, tem pouca importância epistemológica. O “pré-formacionismo triunfou”, apesar de Buffon, Darwin, Pasteur: este é o diagnóstico provocador de Lewontin. Sua conclusão crítica acerca dessa vitória é a seguinte: “O organismo não é determinado nem pelos genes, nem pelo seu ambiente, nem mesmo pela interação entre eles, mas carrega uma marca significativa de processos aleatórios” (LEWONTIN, 2002, p. 45).
De acordo com Almeida e Rocha Falcão (2005), como consequência da teoria pré-formacionista, os principais construtores da teoria da evolução, não usaram o termo “evolução” nas suas obras. Darwin preferiu inicialmente o termo “transmutação” e depois usou a expressão “descendência com modificação” e Lamarck usou as expressões “progressão e “aperfeiçoamento”. Isto porque, originalmente o termo “evolução” foi cunhado em 1744 pelo biólogo alemão Albrecht von Haller, para descrever a teoria de que os embriões crescem de homúnculos pré-formados contidos no óvulo ou no esperma humano. Haller escolheu o termo cuidadosamente, porque a palavra latina evolvere significa “desenrolar” (GOULD, 1999, p.26).
Como escreve Gould:
[...] de que os embriões cresciam de homúnculos pré-formados, contidos nos ovos ou nos espermas e de que, por mais fantástico que possa parecer hoje em dia, todas as gerações futuras haviam sido criadas nos ovários de Eva ou nos testículos de Adão, encerradas como bonequinhas russas, uma dentro da outra – um homúnculo em cada ovo de Eva, um homúnculo menor em cada ovo do homúnculo anterior, e assim por diante (GOULD, 1999, p.25).

Referências
ALMEIDA, Argus Vasconcelos de; ROCHA FALCÃO, Jorge Tarcisio da. A estrutura histórico-conceitual dos programas de pesquisa de Darwin e Lamarck e sua transposição para o ambiente escolar, Ciência & Educação, vol. 11, n. 1, 2005, pp. 17-32

ALMEIDA, Argus Vasconcelos de. Medicamentos da alquimia espagírica baseados na                 destilação de produtos e excreções humanas na obra de John French (1616-1657). Recife : EDUFRPE, 2013.

BALL. Phillip. The Devil's Doctor: Paracelsus and the World of Renaissance Magic and Science. Random House/Arrow Books, 2007.

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[1] Hunain Ibn Ishaq (809 — 873) foi um escritor, acadêmico, cientista, tradutor e médico siríaco, diretor da Escola de Tradutores de Bagdá. Falava fluentemente árabe, persa, grego e assírio.
[2] Do latim “arcanus” que significa misterioso, enigmático. Na alquimia, arcano é um medicamento misterioso acessível somente aos seguidores desta prática.

[3] Os alquimistas davam esse nome a todos os processos que envolvem o movimento e a transformação da matéria.

[4] O esterco de cavalo era usado pelos alquimistas para aquecer moderadamente a matéria.

[5] Que contém fécula ou sedimento.
[6] Aquecer refletindo.

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